domingo, 13 de fevereiro de 2011
Dualidade
E na cabeça ecoam palavras que não são exatamente minhas, mas que foram destinadas a mim “teu instinto, tão selvagem quanto um cio”. A meiguice, sempre tão fortemente presente nas menções que incluíam meu nome, meu jeito, meu gesto. E como é difícil quem acredita que eu seja uma, entender que em mim está pulsando também a outra. Que meu bicho, minha selvageria, não se desliga dos meus momentos racionais, delicadamente pensados, dos meus sentimentos construídos. Minha necessidade de ser gente que se choca e mescla com o desejo de ser só vontade, só instinto, só sensação. A leveza do viver existe juntamente com a firmeza do meu olhar. A dureza do meu viver existe na docilidade do meu sentir. A dor do meu sentir existe naquele meu choro que eu reprimi. Eu não posso e não consigo abafar por muito tempo os gritos animalescos que eu tenho aqui. Quando abafo, eu torno a me destruir. Eu sou muitas vezes puramente destruição, eu saio devastando qualquer boa-intenção que eu tenha comigo mesma. O corpo não mais agüenta as diversas vezes que descontei e ainda desconto minhas raivas, meu bicho preso nessa carapaça que me força a ser gente. Eu me forço a ser gente, gosto de me forçar a ser gente, refletir é meu vício; questiono tudo, menos onde jogo minhas parcelas que me ajudam a conviver comigo, e a me aceitar das únicas maneiras que eu ainda posso ser. Essa contradição das observações e opiniões alheias sobre mim, já me confundiram, grande besteira! Se uma em mim morre, a outra em pouco tempo definha. Uma parte de mim nutre a outra, e se esqueço de alimentar uma das duas, eu torno a me tornar um erro, um erro para mim e em mim. Se não grito, esqueço que tenho voz. Ser só silêncio me deixa rouca. Internamente eu nunca paro de berrar, há dentro de mim o desconforto daquela criança que acabou de nascer.
domingo, 30 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
Ganhar em vida.
Eu perco, eu perco meu domínio, para que eu possa ganhar mais vida. Quero alertas atrapalhadas. Inesperados focos que chamem minha atenção. Fatos que disfoquem a visão. Visão que se recrie com meus olhos fechados. Sentidos que se apurem. Gostos a serem provados. Arrepios internos se manifestando para o sentido tátil. Que o profundo atinja a superfície, que pode ser vista, tocada. Trocas de experiências e experimentações pela madrugada adentro. Adentro em terras que permaneciam desertas. Acho fontes que jorram águas escondidas num clima que se jurava árido, juro que te fertilizarei.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Ponto.
Pois do conto que me conta, o final foi colocado antes do ponto. Pontuo neste canto minhas dores de linhas vazias que não serão nunca preenchidas. A página em branco alerta o quanto as palavras tornaram-se mudas. Este silêncio que atordoa é da voz calada por imposição de um ponto que rejeitou a vírgula embaixo. Final que te impediu de cantar o término do teu canto. Conto agora que tenho meu canto cativo que não foi escrito, mas é onde posso me refugiar. Aquilo que nunca foi e nem poderá mais ser contado. É onde não cabe o final, não cabe o ponto, não cabe e pronto!
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