sexta-feira, 1 de agosto de 2014
retrato.
tem ódio, tem doçura nestes olhos que me encaram. me provocam. me jogam com violência no mundo. num mundo hostil coberto de humanos. num mundo humano coberto de hostis, de ardis. em silêncio, pareço-me concentrar no enigma da esfinge; em poucos segundos, o jogo vira...o enigma sou eu. é aquele rosto que quer me descobrir. retrato imóvel que me ofende. me declara culpada, pecaminosa. do quê me acusa? o quê me sugere? me sinto presa de uma pesca covarde; uma pesca com rede. mais alguns segundos e eu morro asfixiada. meu próprio retrato. meus próprios olhos.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
vou
explodir! não fará barulho, não farei alardes....
vou explodir
de e em singelezas.
é desejo do
peito gritante por ampliação, é grito rouco de alma que transborda.
vou explodir
por estado pleno de poesia, por embriaguez pela força dos encontros humanos,
por pulsar de vida. por pulsar de vida dentro de mim.
vou explodir
por vontade desconhecida – e insaciável – de desconhecido. vou explodir para o
passo a frente, para o passo além. vou explodir para ser jogada no caminho
escuro, para apurar os sentidos, para sorrir sorriso de doer maxilar.
vou explodir
para em conflito alcançar minha paz. vou explodir por resposta de meu corpo, de
minha alma à todas as convocações da vida.
vou explodir
rasgando o peito com minhas próprias mãos, vou explodir em gargalhada idiota e
escandalosa, vou explodir em choro soluçado. vou explodir misturando, fundindo,
fluindo.
vou explodir
para caber mais. para sentir mais. para ser mais comunhão comigo e com o outro.
vou explodir
para entrar mais luz vermelha de pôr do sol.
vou explodir
para não me importar com o doer. vou explodir para respeitar absolutamente o
doer.
vou explodir em reverência à alegria, à tristeza, à beleza.
vou explodir
por amor intenso ao viver.
domingo, 13 de julho de 2014
impaciência
esperas me fazem muito mal. impaciente, deixo de me ser. deixo de demorar-me sobre mim. torno-me bem
pior, quase odiosa. (....sucede-me agora a ideia vaga de que, talvez, boa parte dos
suicídios nascem das impaciências). transformo
a situação, desconfiguro os fatos, mancho a imagem. não sou eu. sou eu. quem sou? quem é ela? heim? tomada pela
impaciência. machucada. despersonalizada. interditado o meu silêncio (...que é
coisa sagrada; apesar de eu, profundamente, cultuar o caos). ouço muito
falatório. só filtro as ofensas, quando consigo filtrar algo. e não filtrar,
é decididamente a pior ofensa que me faço.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
"Mas não foi."
De
tudo fica uma lembrança.
Em
dias como este, em que me aconchego numa caneca de café quente, nos livros que me esperam e no carinho do costumeiro ronronar
da felina que me acompanha, maiores parecem aquelas lembranças que se guardam
sabe-se lá porque. Lembrança de um dia não tão besta em que uma frase disse
menos do que ficou a impressão que se quis dizer. Certamente menos do que, à época
e às circunstâncias, poderia ser ouvido, sentido, quiçá experenciado. O subentendido chacoalha uma cabeça solitária... um corpo solitário. A escolha de
se estar sozinho torna-se menos suportável do que verdadeiramente é. O “E se...” surge arrebatador e pouco consolador ao sussurrar : “Mas não foi.”.
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