quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

AMÁGUA AMÉM

Em comunhão com as águas,
faço do mar minha oração.
E neste silêncio de sim,
vou aprendendo a dizer não.

Pois nada fere mais a pedra,
que o vai-e-vem da maré.
E nem por isso deixa de amá-la,
exatamente como ela é.

Entendendo a contragosto,
a dinâmica dos portos.
Na convivência dos que chegam e partem,
o coração não mede esforços.

Com os pés no chão,
e o resto no vento.
Essa umidade que me salga,
é meu mais forte alento.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Tempo irrisório! Segundos na espreita, minutos de soslaio, hora do bote...horas: atacar!
...é, fugiu!

- Quer tentar denovo? Ainda temos tempo. - Como se tivessemos tempo sobrando... - Temos. - Escuta aqui, já parou para olhar em volta? - Não, e nem você. A diferença é que tenho razões para isso. - E eu as invento. - E crê nelas. - Tem como não crer na farsa? - Tem, assim que você descobrir qual é ela.- Tem pistas? - Todo momento. - E se todo momento for também impostura? - Você quis, não quis? - Tanto quanto você. - Não, o contrário. - O quê? - Acho que era para eu ter dito isso.

Permaneceram jogando inversões, e que nossa lógica os perdoe. O tempo acompanha ou é acompanhado?
Que cheguem os tempos de longas compreensões. Longas e poucas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Páginas percorridas.
Um livro,
um tempo.
Tempo que faltou.
Faltam memórias.
Letras, frases, versos.
Destroem,
pouco a pouco,
o imaginativo do pouco real.
Nem imagem, nem ação.
Ler tudo ao contrário;
contra-edição,
contradição.
Partir do início ou fim,
já nem me importo,
olhos percorrem por si sós,
encaixes não param.
Procurar a volta ao tempo,
retorno ao antes-tempo;
nem história,
nem música,
nem poesia.
Sensação da palavra,
fugidia,
impressão que não traduz.
Gordo nada,
rechonchudo de significações
coisas que não querem dizer.
Querem das outras,
obrigação do próprio fechamento.
Palavras fechadas,
um quê de morte;
há as que não morrem.
Sobreviver à tragédia,
Nascimento do próximo,
próprio tempo.
Estantes recheadas.
Abro,
me engole.
Novamente no tempo,
todas as possibilidades.
Sem me utilizar de anteriores.

Sempre um marinheiro de primeira viagem,
que nem sabe o que é o mar.
Não sabendo, mergulha.
E se não é assim que é,
assim tem sido.
Tem bem sido!
Apesar da exaustão do afogamento,
do gosto novo do velho sal
é de que gosta meu paladar.

domingo, 11 de outubro de 2009

Eu devia era saber, saber que nunca mais saberia daquele casal de farrapos miúdos que sentavam na grama e não esperavam o vento passar. Eu os olhava, olhava de longe. Espaço pra perto só existia entre eles e ainda sim, não se preenchia. Choro de um, decadência de dois. Abatimento de quem se entregou ao sabor sem o querer. Do doce, o amargo; do suplício, a rendição. Pudicos nem na alma. O gozo da vida que não chegara. Na busca, as mãos dadas; doadas para que se equilibrassem as desilusões, os desafetos, os desamores. Sabiam que as pernas assincrônicas caminhariam juntas, mas somente elas. Os sonhos percorriam caminhos distintos a cada criança que passava correndo. O passado não se apagava e do futuro nada esperavam. Os pés presentes rolavam tais quais pedras num barranco, pontiagudos forçavam cambalhotas doloridas. No discurso das passadas leves, enganavam os inocentes transeuntes. Estes inocentes que passam e não duram, que nunca passam do efeito para a causa. Eram causas consolidadas, mas não duráveis. A permanência duraria enquanto durasse a inconstância de ambos, enquanto durassem os beijos frustrados com excesso de ausências. Trépidos jogadores de vida. Avassaladores exemplos de nada. Um e um que não somavam dois. Dois que não davam um.