quarta-feira, 8 de junho de 2016

miscelânea mental (mais uma vez).

me perguntou porque isto era tão frequente, não compreendi o que era isto; e assim ficamos. uma busca incansável - mas já tão cansada! - de um outro olhar, um outro jeito, uma nova maneira. fatigada das combinações do que existe. "eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima". adestrada! aquele outro - que pode ser eu - me acusa. como solucionar a equação de viver uma vida estável sem ser atingida pela mais dura incoerência? cansaços...talvez de uma vida que muito atira por não saber qual seu alvo. outro café! forte, como sempre.  desejo de profundeza. não, não aceito sua companhia - ela me fere. aqui tudo tem um sentido, uma razão. aqui as coisas se encaixam. devo ir embora! quando será a hora? a minha doçura se vai numa rapidez que impressiona. acabaram-se os medos? não, certamente! talvez só estejam começando...algum mínimo, algum mínimo! mentiras que nos levam a refletir sobre nossas verdades? "nada nos impede de cair a não ser a própria energia do movimento". sofrer o impacto. escolher ser atingida! o incômodo. ah...sempre o incômodo. viver não é reter as coisas. vamos na contramão, na contramão da excitação. (des)estancar. aquilo nasceu de uma necessidade! dois pedidos: cubra o meu rosto quando for esticar o lençol, e me deixe ficar - até cansar - gastando o cheiro de amaciante da sua roupa... 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

08.09.15


   Entrei há pouco em meu apartamento. Eu quase que não me lembrava dessa sensação de fechar a porta e, do lado de cá, poder finalmente desabar. Olho com profundidade para o espelho e enxergo uma mulher com olhos de susto e rosto encharcado. 

   Não sou de descrever dias, mas nesse exato instante não sei mesmo do que sou, e algo me impele a fazê-lo... Talvez [quem sabe?] pra desabar mais um tantinho. Aliás, não vou descrevê-lo, apenas direi em sequência rápida o que se passou: uma viagem de madrugada/quase amanhecendo com chuva [embora sem percalços, sempre traveste meu corpo de certa tensão], uma árvore caída sob uma fiação e o corpo de bombeiros bem em frente ao meu prédio [sem energia, o caos se instaura, e corro pela rua e pelas escadas para deixar a Faísca a tempo em casa], uma respirada profunda ao entrar no carro tentando não me atrasar para o estágio, numa parada perfeitamente rotineira de rotatória [quase chegando], um carro colide na traseira do meu [o barulho e o tranco me fazem pensar que a coisa é um tanto séria], abalada chego no estágio e tento manter a calma para ser prática na resolução do problema, dado o tempo de minha saída vou à PM efetuar boletim de ocorrência [sinto-me o pior dos burocratas, mas não posso dar-me o “luxo” de sentir], saio correndo do posto da PM pois o céu está enraivecido e vai castigar, entro no carro e os primeiros pingos-pesados começam, ligo o carro [estou estacionada numa rua íngreme, entre dois carros], ao dar ré, meu pneu estoura e meu carro vai todo para a frente, avançando por sobre a calçada e sendo segurado pelo carro da frente, um casal [de anjos?] vem me ajudar, ambos auxiliam-me a empurrar o carro pra trás para desencostar do da frente e colocam um toco de árvore na roda traseira para segurar o carro [o freio de mão não é capaz de segurar], o céu resolve desaguar pra valer, o homem-anjo me sugere entrar no carro, mostra-me onde é sua casa, e diz que assim que a chuva diminuir um pouco ele virá me ajudar com o pneu, um pouquinho de trégua da chuva, e o homem-anjo reaparece, enquanto troca o pneu para mim a chuva retorna, ele permanece sem cessar e com um sorriso no rosto trocando o pneu de uma desconhecida em meio ao aguaceiro [aguaceiro forte], aquela cena me aperta o peito ainda mais, tenho vontade de chorar [por todo susto, por minha própria fragilidade e pela beleza da generosidade daquele gesto absurdamente humano], revelo-lhe minha gratidão indizível e este homem em meio a um abraço forte me diz que a vida é assim “hoje ajudo você, porque sei que amanhã, se você puder, você ajudará a um outro”.

   Este homem se chama Cícero. E de tudo, Cícero é o que mais me interessa. Cícero não só me ajuda, Cícero amansa minha solidão de ‘homem’ em tempos em que os umbigos esqueceram-se de seu passado de cordão. 

   Não nego que ainda agora sinto os resquícios do tremor do meu corpo e que minha respiração custa a se acalmar, não nego também o desejo ardente de um colo que me ajude a restabelecer meu juízo. Sei que hoje dificilmente irei dormir. Mas o sono não me importa, não preciso recorrer aos sonhos, pois re-acredito nos laços humanos devido a personagens como Cícero... personagens da vida firmemente ancorada no real.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Da caixinha de madeira sem cor.

Suspeito que todo mundo tenha algo guardado, bem guardado. Guardado numa caixinha de madeira sem cor, que mora há muito tempo no fundo do armário, do armário do quarto daquela casa das primeiras experiências [ah, as primeiras experiências...].
Essa suspeita mesmo se encontrava guardada na minha caixinha, e para quantas proximidades, compreensões, reconhecimentos e destinos outros ela já me levou... [uma série incontável]. Sinto que, desde quando muito pequena em idade, ao olhar com fundura para outros olhos, mergulho sem razão na busca por imaginar que espécie de coisas [de coisas vivas e vividas] estão guardadas na caixinha do fundo daqueles outros olhos.  Nem sempre são agradáveis os lugares que visitei na ânsia de encontrá-la, e, devo dizer, tem gente que a esconde [a protege] quase que com raiva, com amargura. Eu confesso que já me machuquei muito nessas minhas andanças de fundo de olhos, e na maioria das vezes, não cheguei nem próximo de encontrar alguma coisa. Mas existe mesmo uma certeza íntima, uma certeza estranha [e que por vezes me vejo tentada a maldizer], de que ela existe e de que tem coisas guardadas ali... Tenho cá uma voz interior que me assopra delicadamente, embora com firmeza, no ouvido que ninguém pode ter uma caixinha vazia, e que, num mundo de tantos julgamentos, de tantos dedos apontados, é mesmo bastante difícil que alguém não guarde secretamente a sua caixinha de essenciais.
       Hoje, desprevenida [como tinha mesmo de ser], encontrei a minha. Foi tocante, tocante ao ponto de molhar os olhos. Foi também um tanto desconfortável [será mesmo que o passado é uma roupa que não nos serve mais?]. Uma experiência dolorosa e alegre, tal qual a experiência de nos olhar sem proteção para o espelho. Tem muito ali que eu gostaria de fugir, de esquecer, de ignorar, de negar, de rejeitar, de expulsar pra fora da minha caixinha. Mas seria uma atitude tão tola! O que subsiste no fundo dos olhos a gente não tira, e vai saber se não são exatamente essas coisas que, paradoxalmente, lhes mantém o brilho? Sinto que fiquei ali a encarando por horas [dias, meses, anos, décadas], e encará-la era transcendê-la...
      ... E talvez seja disso mesmo que ela viva, de oferecer-nos a possibilidade de nos olharmos sem reserva, de nos demorarmos em nós, e quem sabe, exatamente assim, transcendermos a nós mesmos [não de todo e sempre, obviamente]. Até porque, simplesmente negar o que não conhece de si, é permanecer incessante e justamente naquilo que se nega.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

“Viver é jogo, é risco. [...] perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos alguma coisa de extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar.”


Tanto se confunde enquanto falo com aqueles olhos. “Quando já tudo o que me importava se foi, quando fui exposta ao vazio de nada mais ter, voltei – finalmente – meus olhos para os essenciais. E que surpresa! Eu era toda feita de possibilidades. E tinha muito, muito mesmo.”. Deixe-me confessar: eu, quando contigo, não falo mesmo contigo; culpa pura dos seus olhos. Você fala bem (bem até demais!). Mas seus olhos... Ah, seus olhos ainda não foram batizados para a mentira do mundo.  Gosto tanto, tanto deles que até me espanto! E vou até eles como quem busca mesmo o espanto. Quero descortinar-me! Ali na esquina sou pega pelo desejo. O desejo de renascer sem batismo. E me pego tendo que mentir - pelas palavras e com os olhos. Fecho-os, palavra e olhos, no abraço. Eu poderia morar ali por décadas (E como isso é sincero!). Ganho ou perco? Já não sei. Expor-me ao risco era só mais uma das possibilidades. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Torna-te terreno habitável...

... E aceite a intranquilidade de morar dentro de si. 

Não pedirei desculpa. Necessito mesmo que não tire a culpa de mim. Quero carregá-la. Cultivá-la em ódio e amor extremados. Calma, calma. Não me entenda mal. Não me refiro, nem na hipótese mais longínqua, à culpa ancestral - àquela perversa culpa que tentaram enfiar em mim a mil mãos, em meu corpo, em meu pensamento, em minha imaginação (este último, crime inafiançável). Não, não me refiro à culpa castradora, que se alocou em mim muito antes de qualquer porvir de autoconsciência. A verdade mesmo é que utilizo, neste momento, de seus termos. Bem melhor seria se eu falasse em auto-responsabilização. Nem mesmo sei se essa palavra existe. Mas se não existe, o ato, ao menos, tem de existir! Eu quero responsabilizar-me. Meu direito! Minha condição (nossa única condição!). Tirar isso de mim é instaurar-me a confusão maior. Sem direção, sem base, sem chão. Solta, desorientada, desnorteada; em suma, completamente perdida. Preciso saber-me responsável – inteiramente responsável – pelo que provoco, pelo que aceito, mas antes mesmo de tudo isso, pelo que busco. Ah, quanto menos eu me encontraria em minha trajetória se não fossem essas tantas respostas ao que busco... Respostas por vezes cruéis, incompreensíveis. Surpreendentes na medida em que me desmascaram. O que ando buscando mesmo? Talvez eu não saiba ao certo. Ou talvez para estraçalhar este orgulho de quem julga que sabe algo de si, meus mergulhos tanto me contradigam, me ignorem, me ofendam. Quem me ofende sou mesmo eu. Ofensa de amor atrapalhado, imaturo. Revolucionário! Poderíamos mudar o mundo? Posso mesmo morar aqui, dentro de mim? Desassossego. Nômade do mundo! Mas preso dentro de si.  

domingo, 29 de março de 2015

Autocuidado.

Acordar sem o despertador, no momento em que seu corpo se sentir descansado. Preparar um café no coador, degustando absolutamente daquele cheiro de que tanto gosta. Alongar o corpo, redescobrindo aquelas articulações há tanto tempo esquecidas. Acender o incenso preferido. Sentir uma música. Estender o tempo de preparo do seu alimento, dedicando amor (e não Sazon) em cada mexida da colher. Pensar no que realmente deseja comer. Respirar profundamente. Olhar no fundo dos olhos do seu bichano, e retribuir com um carinho sincero, toda confiança que ele deposita em você e toda proteção e companhia que lhe oferece. Colocar aquele vestido solto e colorido que tanto diz sobre você. Sentir o cheiro do amaciante da roupa. Declamar uma poesia em cada canto de sua casa. Lembrar-se de onde veio, e de como chegou até aqui. Reviver o passado com carinho, mas sem esquecer a dureza de alguns aprendizados. Sentir saudade deste mesmo passado, embora não deseje repeti-lo. Deixar-se chorar pelas lonjuras, mas ao mesmo tempo, compreender em sentimento que não está sozinho. Agradecer a solidão física, ainda que queira maldizê-la. Saber agradecer sem se deixar acomodar. Voltar-se aos velhos sonhos e anseios. Recolocar em sua vida, a história e a utopia. Revestir de sentido suas atuais ocupações. Descobrir pelo que luta. Encontrar seu centro de apoio. Não acreditar que todo chão é movediço, que toda construção se dissipa no ar, de que todo fim é iminente. Não se desesperar. Exigir o respeito. Dedicar-se à difícil tarefa de saber o que você pensa sobre si mesmo, e não a autoimagem que os outros te fizeram construir. Saber-se dotado de valor. Conversar de maneira transparente e profunda seja com humanos, bichos ou plantas. Ter amigos verdadeiros de todas as idades, e das mais distintas personalidades. Não se amarrar a opiniões pré-construídas. Dedicar atenção e seriedade ao que o outro diz, seja ele quem for. Não permitir que te empacotem, que te etiquetem, que te engavetem. Duvidar, mas também acreditar. Calcular amadoramente o tanto de verde que te circunda, e se lhe parecer uma quantia insuficiente, fugir para o mato mais próximo. Viajar para rever afetos – mesmo que o tempo que corre egoisticamente faça sua decisão parecer loucura. Não ser soterrado e não ser refém do tempo e de suas próprias escolhas. Brincar com o medo. Permitir que te conheçam. Permitir conhecer-se. Ser descobridor de seus próprios prazeres. Nunca cair na armadilhar de incutir-se autossuficiência. Reconhecer quando deve colocar-se como prioridade. Construir um desvio para o cansaço. Cuidar de si.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A obscena senhora D.

“Me vem também, Senhor, que de um certo modo, não sei como, me vem que muito desejas ser Hillé, um atormentado ser humano. E SENTIR.” 
e adentrando no viver que pulsa daquelas palavras encorpadas e flutuantes. palavras que adquirem materialidade profunda, e que, ao passo que questionam, entregam-se a própria materialidade...como eu. como eu? como eu, que às vezes, não sei se existo ou se isso tudo não passa de uma ilusão, de um sonho. mas ilusão de quem? quem está a sonhar, a perguntar, a desejar? para iludir-me, preciso decretar que existo. “Engasgo nesse abismo, cresci procurando". cresci me reconhecendo nessa senhora D, nessa obscena, nessa porca senhora! como posso sentir que materializo um personagem que, dentre tantos sentimentos, me causa repúdio? talvez seja mais comum do que eu penso sentir repúdio e extremo amor por si mesmo. por nossos processos inexplicáveis e desconhecíveis. talvez seja comum... mas os comuns não conversam - ou não conversam comigo? -. guardam para si, para seus cantos obscuros suas questões mais obscenas. ninguém se conhece. nem a si, nem ao outro. será que outros também se perguntam se realmente existem? metafísica barata. "um dia me disseram: as suas obsessões metafísicas não nos interessam, senhora D, vamos falar de homem aqui agora". vocês também, às vezes, paralisam diante do aqui e do agora? do não saber o que fazer consigo, o que fazer de si? mas tem de prosseguir, elegante senhorita! ou me seria, senhora? “Senhora D, a viva compreensão da vida é segurar o coração. me faz um café”. mas que papo é esse de coração? como segurá-lo dentro do peito quando ele grita? como pausar o grito para tomar um café? “o corpo é quem grita esses vazios tristes.”. foram tantas as vezes que fracassei nas tentativas de calar o corpo. e de calar os pensamentos, também. perco as contas. finjo acreditar que possuo controle.  “Ela Hillé, revisita, repasseia suas perguntas, seu corpo. O corpo dos outros.”. revisito com ela a experiência de me entregar. de trocar o mar pela corredeira. os arrepios do corpo parecem ser distintos. origens várias que se confundem, que me confundem. “ainda isso é pleno e basta para a vida, Hillé, perguntar não amansa o coração.” paixão. bonita palavra. não seria tudo resumível à paixão? não seria esse nosso próprio nome? poderíamos todos nos entre-chamar assim. porque não nos basta o respirar, o sentir?  “perguntas, perguntas, como se fosse simples isso de amar, como se o peito soubesse desse adorno, como posso saber se a alma não compreende? a alma sente. a carne é que sente.” eu sinto. esqueço de quem fui, de quem sou. preciso também de descanso. de colo quente e firme. nosso mal é a solidão? e que criatura humana não é, também solidão? me agarrar em algo, em alguém. que mal há em apegar-se a algo ou a alguém, para vivenciar a própria loucura sobriamente? em encontrar subterfúgios no corpo e na mente para manter-se são, para manter-se lúcido? todos procuramos caminhos. todos recorremos a obscenidades várias. obscena é própria vida.
“[...] e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.” 

*trechos extraídos de "A obscena senhora D.", Hilda Hilst.
  
   

domingo, 24 de agosto de 2014

Fluxo.

“A vida não é argumento; entre as condições da vida poderia estar o erro.” (NIETZSCHE, 1978, p.202)

queria prosseguir a pensar. a cabeça, à essa altura, já estava estafada. lembrei-me de ser, também, corpo. entreguei para o corpo a tarefa do pensamento. o não-pensamento do corpo. falar tinha de ser experienciar. eu nada tenho a dizer, enquanto não digo. eu nada posso ser, enquanto não sou. sinto. personagem. todos os outros que contenho, que acolho em mim. todas as lutas que me sensibilizam. e as que não. por que não? todo santuário que passa pela matéria. e que apodrece. corpo que transcende de tanto ser corpo. vivenciar esse momento-limite enquanto instante crucial, fundamental. fotografá-lo com retinas não-retilíneas. curvar. curvar-se. todo mistério e toda fé. entrelaçar de dedos. dar-se as mãos. doar-se para a experiência, para a comunhão. negar separações; bestas, bestiais. comungar consigo; seu corpo, sua pele, seu suor, seu sangue. ritual de fé. de purificação. de proliferação. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

“Aventura nunca tentada, navegar o convexo do olho sem quebrar segredo, nem casca.”


hoje eu voltei a colocar aquela camisola. meu corpo já é outro. ela, ainda a mesma. tentamos nos ajustar. a felina me chama para a caça. e eu quase que sinto vergonha de lhe confessar que não sou da caça. apesar disso, me reconheço em bicho. tatear no escuro.  o prazer inexplicável do desconforto. me forço à solidão? “eu bestando numa vida antiminha”. eu neguei aquele brinde que ofereceu a nós. neguei por tédio. um desconhecido se aproxima. me julga e me aponta as covardias. não é por humanidade que o faz; é por prazer mesquinho, também covarde. não desisti. não se desiste da ação que nunca se topou executar. a despeito de, não abortar os possíveis. tornar a ação fluída, não obstruída pelo pensar incessante e cruel. desconstrução. para que o valor prossiga sendo a construção. “a vida pulsa, pulsa, pulsa...”. é o que me diz o tic tac do novo relógio. escrever, escrever, para não se perder...nunca mais. 

domingo, 3 de agosto de 2014

duas lições (ou uma só).


chamem de destino ou do que quer que seja. fato é: há de se aprender a ser humilde frente aos mandos e desmandos desta vida.
(“hei de aprender. hei de aprender. hei de aprender...” repito como um mantra).
há vezes em que não há o que ser feito.
aceite? aceite.

solidão é bacana em momentos tais. mas autossuficiência é papo pra boi dormir. talvez a presença de um outro me ajudaria no jogo de forças contra uma ou outra imposição da vida.
(“interdependência. interdependência. interdependência...” repito como um mantra).
preciso do outro para lutar, para inverter jogos.
hoje eu perdi? hoje eu perdi.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

retrato.

tem ódio, tem doçura nestes olhos que me encaram. me provocam. me jogam com violência no mundo. num mundo hostil coberto de humanos. num mundo humano coberto de hostis, de ardis. em silêncio, pareço-me concentrar no enigma da esfinge; em poucos segundos, o jogo vira...o enigma sou eu. é aquele rosto que quer me descobrir. retrato imóvel que me ofende. me declara culpada, pecaminosa. do quê me acusa? o quê me sugere? me sinto presa de uma pesca covarde; uma pesca com rede. mais alguns segundos e eu morro asfixiada. meu próprio retrato. meus próprios olhos. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

vou explodir! não fará barulho, não farei alardes....
vou explodir de e em singelezas.
é desejo do peito gritante por ampliação, é grito rouco de alma que transborda.
vou explodir por estado pleno de poesia, por embriaguez pela força dos encontros humanos, por pulsar de vida. por pulsar de vida dentro de mim.
vou explodir por vontade desconhecida – e insaciável – de desconhecido. vou explodir para o passo a frente, para o passo além. vou explodir para ser jogada no caminho escuro, para apurar os sentidos, para sorrir sorriso de doer maxilar.
vou explodir para em conflito alcançar minha paz. vou explodir por resposta de meu corpo, de minha alma à todas as convocações da vida.
vou explodir rasgando o peito com minhas próprias mãos, vou explodir em gargalhada idiota e escandalosa, vou explodir em choro soluçado. vou explodir misturando, fundindo, fluindo.
vou explodir para caber mais. para sentir mais. para ser mais comunhão comigo e com o outro.
vou explodir para entrar mais luz vermelha de pôr do sol.
vou explodir para não me importar com o doer. vou explodir para respeitar absolutamente o doer. 
vou explodir em reverência à alegria, à tristeza, à beleza.
vou explodir por amor intenso ao viver. 

domingo, 13 de julho de 2014

impaciência

esperas me fazem muito mal. impaciente, deixo de me ser.  deixo de demorar-me sobre mim. torno-me bem pior, quase odiosa. (....sucede-me agora a ideia vaga de que, talvez, boa parte dos suicídios nascem das impaciências).  transformo a situação, desconfiguro os fatos, mancho a imagem.  não sou eu.  sou eu. quem sou? quem é ela? heim? tomada pela impaciência. machucada. despersonalizada. interditado o meu silêncio (...que é coisa sagrada; apesar de eu, profundamente, cultuar o caos). ouço muito falatório. só filtro as ofensas, quando consigo filtrar algo. e não filtrar, é decididamente a pior ofensa que me faço. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

"Mas não foi."

De tudo fica uma lembrança.

Em dias como este, em que me aconchego numa caneca de café quente, nos livros que  me esperam e no carinho do costumeiro ronronar da felina que me acompanha, maiores parecem aquelas lembranças que se guardam sabe-se lá porque. Lembrança de um dia não tão besta em que uma frase disse menos do que ficou a impressão que se quis dizer. Certamente menos do que, à época e às circunstâncias, poderia ser ouvido, sentido, quiçá experenciado. O subentendido chacoalha uma cabeça solitária... um corpo solitário. A escolha de se estar sozinho torna-se menos suportável do que verdadeiramente é. O “E se...” surge arrebatador e pouco consolador ao sussurrar : “Mas não foi.”.  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

“Quando a gente sofre não tem sofrimento nenhum que se compare com o da gente, nem a tristeza enorme que escraviza o mundo...” [foi o que li]

Entre tufões, explosões, guerras, injustiças, misérias
e toda sorte de dor espalhada por entre as gentes...
Eu.
Eu, que não subtraio de mim a dor geral.
Eu, que não aprendi a subestimar a particular.
Eu, que não trago boas novas.
Eu, que pouco posso fazer....
[Que “tenho as mãos atadas ao redor do meu pescoço”]
Eu, que queria... Mas, no fundo, não podia.
Eu, que amo além de mim.
Eu, que amo aquém de mim.

Pessoas ou indivíduos, somos nós, seres humanos?
Que porta abrir primeiro, quando duas estão chamando?

Somos quê?
...quase nada.
Apesar de sermos convocados,
cotidianamente,
...a interferir.

Mas como? Mas como?


Mas como?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

o vencedor.

A foto
[pela inconveniência que o destino certas vezes toma para si]
voltara a ser
vista
relida
ressentida.

Ela:
atenta
absorvida
mergulhando.

Ele:
distraído
espalhado
boiando.

“Distraídos venceremos”
diz o poeta curitibano.

E como
o aroma
o aspecto
e o dissabor
de jogo
foi se impondo,


Presumo que haja um vencedor. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

cena de um cotidiano (comum).

depois de cumprir o compromisso que criei instantaneamente no intuito de ter uma desculpa que convencesse a mim mesma a botar as fuças na rua...a volta para a casa. mas, a vontade já se tornara outra. eu não queria mais voltar a enfurnar minha fuça naquela casa, pelo menos não naquele instante. a cabeça estava cheia, o peito esmagado. não havia mais nada a ser feito senão ouvir, ouvir, ouvir. ouvir um e depois ouvir o outro, quem sabe até o momento de explodir.

o sinal fecha. olho para a frente sem nada olhar. (o mundo rodava, era a labirintite ou a pinga vagabunda que eu tomara?). vejo dois corpos - entre tantos - atravessando a faixa de pedestres. o sinal abre. sigo a seta que eu mesma sinalizei (confesso que cumpri toda a curva só para calar aquele tic tic irritante). viro à direita e permaneço no lado direito. percebo que meu pescoço se inclina totalmente na mesma direção que meu olhar – que, sem razão alguma, ainda acompanha aqueles dois corpos. como pedestres parecem seguir o mesmo caminho que eu. um deles também me acompanha com os olhos. desvio o olhar rapidamente - para impedir o acidente que, naquele dia especialmente, eu estava mais do que propícia a causar. volto a olhar. agora é só um. e prossegue me acompanhando. piso bem leve no acelerador, diminuo a marcha. aquele homem acelera o passo. mais um sinal fechado. ele também pára. sorri fechando os olhos. é bonito. quando me percebo, eu também estou sorrindo. (que vontade de ficar por aqui, de passar a tarde toda assim). o sinal abre. penso em parar. penso em abrir a porta e convidá-lo para entrar. ele vem se aproximando como se, nesses segundos de tomada de decisão, ele soubesse minha dúvida e estivesse pronto à cessá-la. sinto medo. sinto vontade. me enxergo como ser desejante. desejante de arriscar. desejante de esquecer. desejante de - por algumas horas - ser só indivíduo que cumpre seu próprio desejo. viro a esquina afim de dar a volta no quarteirão e voltar para aquele mesmo ponto. o ponto em que minha cabeça rodopiante reflete sobre ficção e realidade. sobre realidade criada que pode parecer roteiro de ficção. sobre ficção acreditada que pode parecer cena de um cotidiano comum. faço esse caminho. ele ainda está ali, e o sorriso se rearranja no rosto quando vê meu carro descendo a mesma. sigo ainda mais devagar. o sinal não vai fechar. não dará tempo de conseguir pegar o lado direito para virar. não vou consigo parar. ao mesmo tempo, consigo ler em seus lábios “por favor, pare.”. eu não posso parar. eu não consegui parar. fui embora sem saber. sonho não era - a rua permanecia igual, todos seguiam o mesmo ritmo dos afazeres rotineiros, a casa que eu entrei prosseguia pesada. nada estava desfeito. sonho não era. voltei para a casa, trazendo de volta somente a covardia. covarde! covarde por não se permitir desejar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

a alegria é delicada.
delicada tal qual a própria constatação.
frágil. frágil mesmo.

acho que nunca percebi a alegria. medo de, na tentativa de represá-la em memória, acabar por perdê-la. mas sinto (quando absorta nesses pensamentos) que alguma coisa aqui dentro grita. talvez um sentimento de que sei exatamente o que é sentir alegria. escassos flashs mentais de instantes de sorriso espontâneo, incontrolável. sorriso secreto. secreto, secreto sim. hoje em dia, raros os que se dedicam a distinguir sorrisos. a desnudar realidades. a se aprofundar nas revelações súbitas. talvez nada revele mais do que um sorriso incontrolável – ainda que tímido. sorriso dos olhos. instante de olhos marejados e risonhos.



quão delicada e frágil é a alegria. tão fácil desgraçá-la se imediata é a percepção de se estar experimentando. melhor guardar em segredo. se possível até de mim mesma. deixe que me venha aquela  (posterior) sensação interior e gritante... tirando-me um sorriso de olhos categoricamente incontrolável.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Jerónimo.

"Quando beirava os 73 anos, Jerónimo, o avô materno de Saramago, sofreu um acidente vascular cerebral. O infortúnio não parecera tão grave de início, mas depois se revelou preocupante. O médico recomendou, então, que o paciente abandonasse a aldeia onde morava e se internasse num hospital de Lisboa. Jerónimo - um homem rude, analfabeto, que criava porcos - dividia com a mulher uma casa simples, de apenas dois cômodos e chão de barro. No quintal, plantara umas quantas oliveiras, figueiras e pereiras. Mal a carroça que o levaria à estação ferroviária chegou, o velho, pressentindo que não retornaria, saiu do casebre e abraçou cada uma das árvores. Não emitiu nenhuma palavra. Somente chorou baixinho e enlaçou a minúscula floresta. 
O episódio me impressiona sobretudo pela contenção. Para se despedir dos seres mansos e quietos que lhe encheram os dias de sentido, o camponês optou por um gesto igualmente manso e quieto. Não lamentou o rumo que as coisas tomaram, não amaldiçoou as transformações que presenciava nem as que deixaria de presenciar, não fez elogios às árvores, não recordou os bons momentos que compartilharam. Resignou-se em dizer tudo o que gostaria sem dizer nada. Ironicamente, tempos depois, o neto de Jerónimo se notabilizaria justo pelo contrário: pela necessidade incontornável de atar a vida às palavras. Não quaisquer palavras, é claro, mas ainda assim palavras - e copiosas, fluidas, abrangentes.
Ocorre que em determinadas circunstâncias, ações similares às do avô tem impacto maior que posturas como as do neto. Há despedidas que não encontram tradução. O que falar diante de um amigo que se muda para bem longe, um amor que morre, um projeto querido que se interrompe? Às vezes, o melhor - o mais preciso e eloquente - é dar adeus em silêncio."
(trecho da Carta de Redação do último exemplar  - nº 192, agosto de 2013 - da Revista Bravo! cuja reportagem de capa homenageia José Saramago).


como mostra a referência que coloquei abaixo do trecho transcrito, essa revista chegou a mim em agosto de 2013. até o dia de hoje - já no centro do mês de novembro - eu a olhava e postergava essa leitura. hoje li. hoje, quem sabe, eu compreenda algo, mesmo que de forma pouca.
devo dizer, as palavras referentes ao lidar com o adeus, já me diziam respeito desde 2006 (isso se já não é possível dizer que o adeus nasça conosco no momento do próprio parto e nos acompanhe até o fim da vida). como uma bactéria alocada, porém não manifesta, convivi com elas. ano passado, também por elas  (por que não acredito em reduções fáceis e baratas), adoeci. dores não explicáveis, dores não detectáveis, dores não compreensíveis; dores não traduzíveis, enfim. 
após esse episódio- e algumas justamente por conta dele - outras despedidas me chegaram. mas ainda assim, eu não seria capaz de me encontrar tão integralmente - tão completamente - nessas palavras; me encontraria em partes, certamente. me emocionaria, mas isso ainda não me levaria a compreensões.

como alguns sabem, minhas digestões são demoradas. 

fim de outubro de 2013: mais um adeus. não qualquer adeus. adeus que me faz retornar à 2006 e reviver anos passados, anos experienciados, anos vividos, anos de pele, anos de alma, anos de entrega - no que mais se encaixa ao que acredito que deva ser estar aqui, em vida. 

com a partida de minha avó, outras despedidas difíceis me chegam em lembrança. 

seus últimos anos lhe impossibilitaram a fala. quanto a mim, tagarelei durante esses anos ao pé de sua cama. o último dia que a vi (ainda viva), minha escolha - já no sentimento de que naquele momento era preciso que eu lhe dissesse adeus - foi pelo silêncio.
mesmo no momento a sós com o papel, eu já não sentia aquela comunhão tão forte com as palavras - a algum tempo venho sentido essa distância. 

nem todo adeus me ocorreu em silêncio. em momentos senti necessidade do "adeus em silêncio", em outros senti necessidade de dar "adeus ao silêncio". 
longe de colocar minha relação com as palavras em pé de igualdade com Saramago ou com Jerónimo, entendam. longe também de concordar que o silêncio é sempre brando, manso e calmo - na maior parte das vezes, o meu se constitui exatamente no contrário.

me boto a pensar nessas vivências que ultrapassam compreensão e tradução. me boto a pensar nas maneiras de lidar com a dor - e também com a alegria! -. me boto a pensar naqueles que tem por constante necessidade vomitar palavras. me boto a pensar naqueles que tem por constante necessidade engolir silêncios. me boto a pensar em imposições de um suposto destino. me boto a pensar no potencial de nos refazermos, de nos recriarmos. 

seja com o suporte das palavras, seja com o suporte do silêncio, tudo é maneira de lutarmos por sentido, de nos comunicarmos com o vivido e com as potencialidades do vir-a-ser. 


domingo, 27 de outubro de 2013

eis que mais uma vez se apresenta ante mim esse mistério. mistério que inquieta, que dói , que corrói. dói porque, de alguma forma, nos tira (nos arranca à força melhor dizendo) algo, nos tira alguém. 
a morte – por mais estranho que nos possa parecer – vem, nesse instante, com um gosto de conforto; acredito que por finalmente nos dar a sensação de que oferece a paz para quem tanto a pedia, para quem tanto a merecia.
esse período de transição entre vida e morte foi extenso, foi duradouro. colocou-nos todos frente a frente (e de maneira inescapável) com questões essenciais - e não há como negar como foi difícil poder encará-las sem dor; assim como é difícil encarar a vida,  assim como é difícil encarar a morte.
peço apenas aos dias que virão que mantenham vivas na memória a imagem (e na pele, a sensação) das mãos que me deram meu primeiro banho, e dos olhos que, encantados, vivenciaram comigo nossa primeira vez diante da assustadora imensidão do mar.  
(mar e imensidão que ainda assustam e que ainda se mostram como esse mistério que agora vivencio.)
quem sabe hoje a senhora não consiga alcançar melhor todas essas coisas que tanto me escapam?

estou certa de que o tempo irá fazer com que eu consiga pintar todas as lembranças que vierem com os tons das heranças que me deixas.


vá vó, vá em paz se juntar ao nosso véio caipira!